Pesados os prós e os contras, feitas as contas, ao longo de 40 anos, FERNANDO GOMES é o genuíno e legítimo representante do Fado que houve e ainda há na mui nobre e invicta cidade
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"NÃO PASSO BEM A NOITE" ou "OLHAI A NOITE"
UM SUCESSO FÍSICO QUE A RTP E A SPA ABAFARAM... PORQUÊ ?!...


O que a sério faz doer,
Muito mais que a falsidade,
É cedo ou tarde, sem querer,
Ter de enfrentar a verdade!


Fadistas, gente do fado, apreciadores do lamento doloroso com que buscam emotivamente prazer espiritual - para que bem se entenda: espécie de queca fruída a chorar, algo que merece o tácito repúdio dos que se presumem publicamente pessoas de sangue com asas - portadores de uma condição muitíssimo parecida à do grupo de indivíduos que se conglomeram para contemplar e comentar em detalhe um dado sinistro onde se espatifaram fatidicamente condutor, acompanhantes e viatura. Numa situação a emoção é genericamente histórica, noutra, é imediata e real. Todavia a basófia é paradigmática entre si e, inevitavelmente, Babel, plena de bíblicos milénios, reconstrói-se permanentemente.

Fado, acoite de Severas e de Chicos do Caxiné, de Vimiosos e de matronas putéfias em polido esmero a fingirem-se de damas púdicas, um todo que se repugna e se gosta ao mesmo tempo, consoante o ponteiro dos minutos perpasse ou não pela oportunidade crucial da atracção. Em redor, a gente de credo ingénuo e sádio, a maioria que procura curiosamente saber e experimentar o que é o Fado na prática, além do ouvido e da impositiva boa imagem dos seus agentes. Enfim, tal como tão bem descreve Tinop, à guisa de fadistão de brilhozinho nos olhos esfregando em gáudio uma mão contra a outra: os otários!

A ambiência do Fado tende a ser fabulosa um minuto após o acontecimento e, daí, a distorção é óbvia, algo que em escalada final produz o injusto contraste da existência humana: gente benquista morre ignorada enquanto assassinos e ladrões se sentam no trono da fama.

NÃO PASSO BEM A NOITE ou OLHAI A NOITE

Eu, que fui o autor dos singelos versos, sobre sua respectiva concepção e feitura já fui vezes sem conta descaradamente e sem pejo algum frontalizado com o "não foi assim - assim é que foi". Ao cabo de 40 anos, eis o relato de como deveras foi que o desiderato nasceu, cresceu, se desenvolveu, se expandiu e envelheceu.

Decorria o ano de 1966. Eu trabalhava então na conceituada firma Engº. Gustavo Cudell, na rua do Bolhão, e vivia num prédio contíguo ao edifício do Automóvel Clube de Portugal com a Amélia Sardenta, uma mulher de guerra permanente e fascinante loucura. Nessa época, comecei a Frequentar assiduamente a "Candeia", na rua do Almada, cabaré no rés-do-chão e retiro típico de Fado na cave.

O patrão era o senhor Augusto Almeida, o porteiro chamava-se Sousa e o elenco fadista era constituído por Álvaro Martins, à guitarra, Mário Lopes, à viola e os interpretes, que em exclusivo têm a ver com o pormenor, eram Nuno de Aguiar e Adriana Franco, casal vindo de Lisboa cujo casamento civil o Almeida e esposa apadrinharam, e, espécie de "menino querido da casa", Fernando Gomes e Madalena Candeias (Ana Madalena).

Ora, desde há uns meses atrás, que um grupinho feito entre clientes, artistas e empregados, logo a seguir à chama terminal do isqueiro do Almeida, às 4 horas da manhã, tinha por hábito montar tertúlia no Ginjal, para cear, e depois seguia avante para a Peluda, à entrada da rua do Souto, na Banharia, até às 2 e 3 horas da tarde. Muitíssimas vezes, o devaneio culminava fatalmente numa directa.

A Peluda era, em efectivo significado, uma dinâmica trintona, dona de um exíguo boteco, que tratávamos carinhosamente por "Menina" e que de facto se chamava Venina, boa de ancas e seios, tinha de facto aveludados pelinhos negros nos braços e nas pernas. Andava eu então interessadíssimo - andavam todos - em dar-lhe uma depiladela, mas nunca logrei pinça jeitosa por mais engenhocas que empreendesse.

Assim, ao longo da madrugada até ao dia, da Candeia para o Ginjal, do Ginjal para a Peluda e da Peluda, ora para o António da Banharia, ora para o mercado do Bolhão, pelo meio da diversão deparava-se-nos um pouco de tudo que a vida comporta, um estendal de peripécias tristes que a malta amainava ou contornava alegremente como podia.

De toda essa envolvência e movimento nasce a ideia para escrever um Fado. "Não passo bem a noite sem te ver". Quem era pois a musa do "te" deste verso? Era, nem mais nem menos, a Peluda, a Menina, a Venina.

Numa das noites adiante, na Candeia, sentado e recostado num dos extremos do balcão, enquanto trocava larachas com o empregado de serviço, nessa altura o outro Fernando - filho do Almeida - nas costas de uma ementa, os versos começaram a surgir entre fumaças e goles de tinto à temperatura ideal, aquela, que ao contrário do usual recomendado, a sensibilidade aceita de qualquer forma e como vier.

E veio, tal como se num curto momento concentrado voltasse de novo a viver madrugadas e madrugadas a fio em aprazível vertigem. A guitarra do Álvaro gemia e o Nuno cantava: "Ó mulher, quando eu morrer / tu nunca deves vestir / de luto por sentimento... / Veste o vestido mais belo / encarnado ou amarelo / para arranjares casamento...". A inspiração desceu-me até aos dedos e comecei a escrever:

Olhai a noite,
Vêde as sombras dessas ruas,
Saudades, que martirizam, que matam...
Olhai a noite,
Refúgio das almas nuas,
Verdades, que muitos sequer as notam...

Olhai a noite,
Dessas longas madrugadas,
Fadistas, à procura de um destino...
Olhai a noite,
Ermo imenso desses nadas,
Fatalistas, vagueando em desatino...

Não passo bem a noite sem um fado,
Não passo bem a noite sem beber,
Não passo bem a noite abandonado,
Não passo bem a noite sem te ver...

Logo que expus os versos ao apreço do elenco, o Nuno de Aguiar, após atenta observação, sugeriu de imediato uma pequena alteração, considerando que soaria melhor e proporcionaria mais elegância à expressão. Se não fosse a sua luminosa e oportuna intervenção, no refrão, o "Olhai a Noite", hoje, cantar-se-ia assim:

Não me sabe bem a noite sem um fado,
Não me sabe bem a noite sem beber,
Não me sabe bem a noite abandonado,
Não me sabe bem a noite sem mulher...

Então, acordando que os versos estavam definitivamente em ordem, o Álvaro Martins pegou na ementa rabiscada e, juntamente com a guitarra, arrumou tudo na respectiva caixa.

Na noite seguinte, quando desci à cave da Candeia, o Nuno e o Fernando estavam ao redor do Álvaro a captar e a trautear os versos sobre a música que o exímio e saudoso guitarrista tinha já composto.

Logo que a luz desceu de intensidade para dar lugar ao Fado, apenas comigo na sala como cliente e num primeiro ensaio, o Fernando Gomes cantou pela primeira vez o "Não passo bem a noite".

Depois, em sequente, rápido e incessante bis-a-bis, a composição, assumindo-se clássico nacional em interpretação física, entrou no repertório de largas centenas de cantores, dos quais destaco, por ordem alfabética, os principais na sua divulgação. Se algum me esqueceu, estarei sempre a tempo de efectuar o devido acréscimo.

Albano (de Fão)
Alfredo Guedes
Alma Rosa
Almerinda Azevedo
América Rosa
Ana d'Assunção
Ana Madalena
António Calvário
António Machado
António Reis
Artur Lobo
Augusto José
Aurélia Adelaide
Beatriz da Conceição
Carlos Marques
Carlos Zel
César Morgado
Fernando Gomes
Fernando João
Fernando Maurício
Fernando Teodoro
Filipe Duarte
Francisco Martinho
João Correia
José Couto
José Fernandes
José Ferreira
José Machado
José Teixeira
Manuel Bastos
Maria d'Assunção
Maria Jojo
Maurício Campelo
Nuno de Aguiar
Ricardo Barreto
Toni de Matos
Tristão da Silva
Valdemar Vigário
Vasco Rafael


É esta pois, e não alguma outra, a história que deu lugar ao "Não passo bem a noite" ou "Olhai a Noite", um sucesso físico que a RTP e a SPA abafaram ao longo de 40 anos... Porquê?!... Por tudo, inclusive, por represante miserabilismo invejoso que transcende, em profundidade, os mais esconsos lupanares do Fado de todas as épocas. O "eloquente" sistema que impediu - "aconselhou" - o Toni de Matos a não gravar o "Olhai a Noite", é exactamente o mesmo que trouxe a canção portuguesa, através da Europa e do Mundo, até às "Non Stop". De facto, sem parar, "eles-os-mesmos", aí estão a zelar pela "elegante" medíocridade da nossa "afamada-fama" internacional. E ainda paira e permanece, pois, o silêncio amordaçando o grito!...



António Torre da Guia


Um fado inédito para FERNANDO GOMES

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