Fadistas, gente do fado, apreciadores do lamento doloroso com que buscam emotivamente prazer espiritual - para que bem se entenda: espécie de queca fruída a chorar, algo que merece o tácito repúdio dos que se presumem publicamente pessoas de sangue com asas - portadores de uma condição muitíssimo parecida à do grupo de indivíduos que se conglomeram para contemplar e comentar em detalhe um dado sinistro onde se espatifaram fatidicamente condutor, acompanhantes e viatura. Numa situação a emoção é genericamente histórica, noutra, é imediata e real. Todavia a basófia é paradigmática entre si e, inevitavelmente, Babel, plena de bíblicos milénios, reconstrói-se permanentemente.
Fado, acoite de Severas e de Chicos do Caxiné, de Vimiosos e de matronas putéfias em polido esmero a fingirem-se de damas púdicas, um todo que se repugna e se gosta ao mesmo tempo, consoante o ponteiro dos minutos perpasse ou não pela oportunidade crucial da atracção. Em redor, a gente de credo ingénuo e sádio, a maioria que procura curiosamente saber e experimentar o que é o Fado na prática, além do ouvido e da impositiva boa imagem dos seus agentes. Enfim, tal como tão bem descreve Tinop, à guisa de fadistão de brilhozinho nos olhos esfregando em gáudio uma mão contra a outra: os otários!
A ambiência do Fado tende a ser fabulosa um minuto após o acontecimento e, daí, a distorção é óbvia, algo que em escalada final produz o injusto contraste da existência humana: gente benquista morre ignorada enquanto assassinos e ladrões se sentam no trono da fama.
NÃO PASSO BEM A NOITE ou OLHAI A NOITE
Eu, que fui o autor dos singelos versos, sobre sua respectiva concepção e feitura já fui vezes sem conta descaradamente e sem pejo algum frontalizado com o "não foi assim - assim é que foi". Ao cabo de 40 anos, eis o relato de como deveras foi que o desiderato nasceu, cresceu, se desenvolveu, se expandiu e envelheceu.
Decorria o ano de 1966. Eu trabalhava então na conceituada firma Engº. Gustavo Cudell, na rua do Bolhão, e vivia num prédio contíguo ao edifício do Automóvel Clube de Portugal com a Amélia Sardenta, uma mulher de guerra permanente e fascinante loucura. Nessa época, comecei a Frequentar assiduamente a "Candeia", na rua do Almada, cabaré no rés-do-chão e retiro típico de Fado na cave.
O patrão era o senhor Augusto Almeida, o porteiro chamava-se Sousa e o elenco fadista era constituído por Álvaro Martins, à guitarra, Mário Lopes, à viola e os interpretes, que em exclusivo têm a ver com o pormenor, eram Nuno de Aguiar e Adriana Franco, casal vindo de Lisboa cujo casamento civil o Almeida e esposa apadrinharam, e, espécie de "menino querido da casa", Fernando Gomes e Madalena Candeias (Ana Madalena).
Ora, desde há uns meses atrás, que um grupinho feito entre clientes, artistas e empregados, logo a seguir à chama terminal do isqueiro do Almeida, às 4 horas da manhã, tinha por hábito montar tertúlia no Ginjal, para cear, e depois seguia avante para a Peluda, à entrada da rua do Souto, na Banharia, até às 2 e 3 horas da tarde. Muitíssimas vezes, o devaneio culminava fatalmente numa directa.
A Peluda era, em efectivo significado, uma dinâmica trintona, dona de um exíguo boteco, que tratávamos carinhosamente por "Menina" e que de facto se chamava Venina, boa de ancas e seios, tinha de facto aveludados pelinhos negros nos braços e nas pernas. Andava eu então interessadíssimo - andavam todos - em dar-lhe uma depiladela, mas nunca logrei pinça jeitosa por mais engenhocas que empreendesse.
Assim, ao longo da madrugada até ao dia, da Candeia para o Ginjal, do Ginjal para a Peluda e da Peluda, ora para o António da Banharia, ora para o mercado do Bolhão, pelo meio da diversão deparava-se-nos um pouco de tudo que a vida comporta, um estendal de peripécias tristes que a malta amainava ou contornava alegremente como podia.
De toda essa envolvência e movimento nasce a ideia para escrever um Fado. "Não passo bem a noite sem te ver". Quem era pois a musa do "te" deste verso? Era, nem mais nem menos, a Peluda, a Menina, a Venina.
Numa das noites adiante, na Candeia, sentado e recostado num dos extremos do balcão, enquanto trocava larachas com o empregado de serviço, nessa altura o outro Fernando - filho do Almeida - nas costas de uma ementa, os versos começaram a surgir entre fumaças e goles de tinto à temperatura ideal, aquela, que ao contrário do usual recomendado, a sensibilidade aceita de qualquer forma e como vier.
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E veio, tal como se num curto momento concentrado voltasse de novo a viver madrugadas e madrugadas a fio em aprazível vertigem. A guitarra do Álvaro gemia e o Nuno cantava: "Ó mulher, quando eu morrer / tu nunca deves vestir / de luto por sentimento... / Veste o vestido mais belo / encarnado ou amarelo / para arranjares casamento...". A inspiração desceu-me até aos dedos e comecei a escrever:
Olhai a noite,
Vêde as sombras dessas ruas,
Saudades, que martirizam, que matam...
Olhai a noite,
Refúgio das almas nuas,
Verdades, que muitos sequer as notam...
Olhai a noite,
Dessas longas madrugadas,
Fadistas, à procura de um destino...
Olhai a noite,
Ermo imenso desses nadas,
Fatalistas, vagueando em desatino...
Não passo bem a noite sem um fado,
Não passo bem a noite sem beber,
Não passo bem a noite abandonado,
Não passo bem a noite sem te ver...
Logo que expus os versos ao apreço do elenco, o Nuno de Aguiar, após atenta observação, sugeriu de imediato uma pequena alteração, considerando que soaria melhor e proporcionaria mais elegância à expressão. Se não fosse a sua luminosa e oportuna intervenção, no refrão, o "Olhai a Noite", hoje, cantar-se-ia assim:
Não me sabe bem a noite sem um fado,
Não me sabe bem a noite sem beber,
Não me sabe bem a noite abandonado,
Não me sabe bem a noite sem mulher...
Então, acordando que os versos estavam definitivamente em ordem, o Álvaro Martins pegou na ementa rabiscada e, juntamente com a guitarra, arrumou tudo na respectiva caixa.
Na noite seguinte, quando desci à cave da Candeia, o Nuno e o Fernando estavam ao redor do Álvaro a captar e a trautear os versos sobre a música que o exímio e saudoso guitarrista tinha já composto.
Logo que a luz desceu de intensidade para dar lugar ao Fado, apenas comigo na sala como cliente e num primeiro ensaio, o Fernando Gomes cantou pela primeira vez o "Não passo bem a noite".
Depois, em sequente, rápido e incessante bis-a-bis, a composição, assumindo-se clássico nacional em interpretação física, entrou no repertório de largas centenas de cantores, dos quais destaco, por ordem alfabética, os principais na sua divulgação. Se algum me esqueceu, estarei sempre a tempo de efectuar o devido acréscimo.
É esta pois, e não alguma outra, a história que deu lugar ao "Não passo bem a noite" ou "Olhai a Noite", um sucesso físico que a RTP e a SPA abafaram ao longo de 40 anos... Porquê?!... Por tudo, inclusive, por represante miserabilismo invejoso que transcende, em profundidade, os mais esconsos lupanares do Fado de todas as épocas. O "eloquente" sistema que impediu - "aconselhou" - o Toni de Matos a não gravar o "Olhai a Noite", é exactamente o mesmo que trouxe a canção portuguesa, através da Europa e do Mundo, até às "Non Stop". De facto, sem parar, "eles-os-mesmos", aí estão a zelar pela "elegante" medíocridade da nossa "afamada-fama" internacional. E ainda paira e permanece, pois, o silêncio amordaçando o grito!... |